Os fósseis e pedras antigas de Guido Borgomanero



Guido Borgomanero, falecido há poucos anos,  foi cônsul geral da Itália no Paraná. No Rio Grande do Sul, foi patrono de um museu com milhares de peças de madeira fossilizada. A investigação sobre o passado de nosso planeta foi uma de sua grandes paixões em vida. Esta entrevista foi gravada em 1997.

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José Wille – O senhor tem uma coleção muito importante, uma das maiores existentes, de pedras, minerais e fósseis brasileiros. Como surgiu esse interesse? 

Guido Borgomanero – Desde criança, sempre fui fascinado pelas pedras preciosas e pelos minerais e, alguns anos mais tarde, pelos fósseis. Então, comecei a estudar muito seriamente e em profundidade a paleontologia – ciência que estuda os fósseis –, a mineralogia e a gemologia – ciência que estuda as gemas ou pedras preciosas. Comecei, praticamente, a me interessar aos 6 anos de idade e isso, 71 anos depois, continua mais forte e virulento do que nunca. A coleção gemológica que possuo é, de longe, a maior e mais completa da América Latina, porque todas as gemas do Brasil e do mundo são amplamente e muito bem representadas. E tenho também uma coleção paleontológica que tem fósseis achados em todo o mundo, uma de minerais e outra paleoantropológica, que descreve a vida do homem na terra, desde quando ele surgiu até as grandes civilizações ocidentais, a fenícia, grega, egípcia, síria, romana, asteca, maia, tudo isso. 

José Wille – O senhor se tornou um geólogo autodidata com o tempo? 

Guido Borgomanero – Sim, li mais de 250 publicações em 5 idiomas e escrevi 8. Participei de 5 simpósios e congressos internacionais de paleontologia e tenho grande orgulho de passar à história da paleontologia, porque dei o nome a um achado de um crânio de um pterossauro, um gigantesco dinossauro voador, cujo nome, Cearadactylus atrox, hoje está em todos os tratados de paleontologia. 

José Wille – A coleção cresceu mais aqui no Brasil, onde o senhor teve a possibilidade de ter a coleção ampliada. 

Guido Borgomanero – No Brasil, houve uma verdadeira explosão! É uma paixão e uma vontade de conseguir algo único no mundo, o que consegui. 

José Wille – E o senhor conserva todo esse material em sua casa? Tem um museu particular? 

Guido Borgomanero – Exato. E você é convidado a visitá-lo, porque quem não vê, não acredita. 

José Wille – O senhor recebe muitos visitantes do exterior? 

Guido Borgomanero – De todo o mundo. Inclusive, o curador do American Museum of Natural History, que é o maior museu de ciências naturais do mundo, ficou abismado, quando viu tudo isso e passou três dias na minha casa, batendo três rolos de diapositivos coloridas, o tempo todo. 

José Wille – Com os fósseis do Paraná, o que dá para contar sobre nosso passado? 

Guido Borgomanero – O Paraná é muito pobre, seja em fósseis ou em gemas. Em gemas, temos umas poucas ágatas e poucas ametistas, mas de qualidade medíocre; em peixes, na região de Cianorte, uns peixinhos pequenos, mas, em compensação, tem bastante madeira petrificada. 

José Wille – Por que, no Paraná, os fósseis não foram conservados?  

Guido Borgomanero – Porque o Paraná é geralmente terra vulcânica. Houve, há 300 milhões de anos, fenômenos de vulcanismo imponentes, e onde estão os vulcões, não podem estar os fósseis. No Paraná nenhum vestígio foi encontrado. Havia lagoas com peixes de água doce, cujos fósseis foram encontrados. O mar tinha entrado terra adentro e, por isso, encontram-se fósseis de peixes marinhos. Mas à parte isso, muito pouco. 

José Wille – Em regiões de Ponta Grossa e Almirante Tamandaré, que tiveram seus mares? 

Guido Borgomanero – Ponta Grossa tem alguns fósseis de certo interesse, porque é um território muito antigo, pré-cambriano, com mais de dois bilhões de anos. O fóssil mais interessante que se encontra é o das trilobitas, que foram os primeiros animais organizados que apareceram na face da terra, há uns 500 milhões de anos. 

José Wille – Não dá para dizer que esses grandes animais não existiram, o que se sabe é que os vestígios não permaneceram? 

Guido Borgomanero – Exato. Não foram encontrados vestígios. Por isso, alguns duvidam que houvesse dinossauros no Paraná, ao contrário do que aconteceu no Rio Grande do Sul e no Ceará. 

José Wille – O Brasil, de forma geral, é uma grande concentração para pesquisa com esses fósseis? 

Guido Borgomanero – É privilegiado, porque tem o Rio Grande do Sul, que abriga, entre outros, a gigantesca floresta petrificada de mata, numa localidade a uns 90 km ao leste de Santa Maria, que é a segunda maior do mundo, após aquela do Arizona, nos Estados Unidos; depois, tem Paraíba e Ceará, com vestígios de dinossauros, de peixes, de pterossauros, com uma quantidade e qualidade de fósseis excepcionais. 

José Wille – O que dá para citar, como curiosidade, dos fósseis mais importantes que o senhor possui?  

Guido Borgomanero – Ovos de dinossauros, fezes fósseis, gastrólitos, que eram pedras que os dinossauros – à semelhança do que as galinhas fazem hoje – engoliam para facilitar a sua digestão – seixos grandes que, com o tempo, viraram rolados. E muitos outros… 

José Wille – O senhor é bastante procurado por museus, por pesquisadores do exterior, que querem peças? 

Guido Borgomanero – Sim. Embora que, da parte universitária, sobretudo da Universidade de Paleontologia, seria de se esperar um interesse maior, porque é o mais importante museu que se tem em Curitiba, no Paraná, e é um dos principais no Brasil e na América Latina. E é relativamente pouco visitado. 

José Wille – O senhor acha, então, que o brasileiro tem pouco interesse sobre a área? 

Guido Borgomanero – Pouquíssimo! Esse é uma das maiores falhas que eu cito. O brasileiro não sabe a terra rica e abençoada por Deus onde nasceu e sabe pouco ou nada do que ela contém. Isso é triste, mas a verdade tem que ser dita. 

José Wille – E a sua coleção de pedras e minerais? 

Guido Borgomanero – Gemas ou pedras preciosas são o estado bruto. Tenho todas as variedades existentes no mundo muito bem representadas. A coleção minerológica contém os principais minerais metálicos e não-metálicos fluorescentes, ultravioletas, vulcânicos do mundo todo, e dá um panorama muito claro do que são e a utilidade dos minerais para a vida do homem moderno. E tem aqueles da paleoantropologia, que trata a história do homem da terra desde os artefatos. Desde o Australopitecus, de dois milhões e meio de anos atrás, até uma mandíbula inferior do mais antigo representante do índio brasileiro, o famoso Homem de Lagoa Santa, com trinta mil anos de idade. 

José Wille – Com as pedras e os minerais, muito da nossa história geológica pode-se aprender com estes estudos? 

Guido Borgomanero – Tudo, tudo! A partir dos minerais e das gemas, pode-se traçar um quadro perfeito e completo.

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Parte de árvore petrificada no Rio Grande do Sul

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