O início do esporte no Rádio do Paraná

Prefeito de Arapongas, deputado estadual, empresário, pecuarista, secretário da Educação e Cultura foram algumas das atividades de José Colombino Grassano. Mas também na comunicação ele foi um pioneiro: o primeiro a apresentar um programa esportivo na história do rádio paranaense. Veja nesta entrevista gravada em dezembro de 1998 para o programa Memória Paranaense da Rádio CBN-Curitiba e Fundação Inepar.  

José Wille – O senhor veio para cá trabalhar no rádio. Como surgiu essa oportunidade? O que levou o senhor, que não tinha até então trabalhado nesta área, a pensar nisso?

José Colombino Grassano – Não surgiu a oportunidade. Eu criei a oportunidade para trabalhar no rádio! Vindo de trem, cheguei em Ponta Grossa e comprei uma edição da “Gazeta do Povo”, procurando algum anúncio que me oferecesse um emprego, para que pudesse, assim, garantir a minha sobrevivência na capital do estado. Mas não encontrei nada que se adaptasse à minha formação ou aos meus princípios ou até mesmo ao meu idealismo. Tendo lido tudo e não encontrado nada, fui para a coluna de rádio da única emissora que tinha aqui em Curitiba, a PRB2. E vi que não havia programa esportivo na programação. No dia seguinte, fui procurar o diretor da rádio, Éolo César de Oliveira, e expus a minha ideia de fazer um programa de esportes dentro da emissora. E me convidaram para fazer um teste no primeiro domingo. Já era uma terça ou quarta-feira e, no domingo seguinte, houve um jogo de futebol no campo do Coritiba. Eu fui e gravei. Naquele tempo, era difícil tinha que levar o gravador, um trambolho para se transportar, até a cabine de rádio. Ali comecei a minha vida de radialista na capital do estado.

José Wille – Até 1945, não existia uma equipe de esportes trabalhando sistematicamente, acompanhando os jogos?

José Colombino Grassano – Não existia. Não havia nenhuma programação. Nós, então, aplicamos aquela ideia e desenvolvemos um trabalho muito bom na PRB2. Tanto que, logo em seguida, com a inauguração da rádio Marumby, fomos convidados a organizar o departamento de esportes. E o nosso período áureo, de grande repercussão e grande trabalho, foi na rádio Guairacá, a rádio que era do Murilo Lupion de Quadros. Mantínhamos 5 programas de esportes por dia, com uma equipe muito boa. Eu tinha um programa de auditório, de perguntas e respostas, que dava prêmios em dinheiro. Um detalhe interessante: no primeiro programa, apareceu um rapaz que respondeu a todas as perguntas. No segundo, já no meio do programa, ele respondeu a todas as perguntas, as mais diversas. Eu, então, interrompi o programa, mandei chamá-lo e perguntei se queria trabalhar na rádio. Ele ficaria no plantão da rádio no dia das transmissões esportivas para responder a quaisquer perguntas que fizessem os ouvintes. Ele era o Clemente Comandulli, que passou a ser um grande jornalista, trabalhou muito tempo na “Gazeta do Povo” e precocemente faleceu. São essas coisas que nós criávamos na rádio Guairacá em uma época difícil da comunicação. A parte técnica era muito complicada, muito difícil. Nós não dispúnhamos dos elementos de que você dispõe hoje na CBN. Fala com facilidade com Nova Iorque, com Tóquio, com Piraquara…  é a mesma coisa. Nós não tínhamos nada disso.

José Wille – Para fazer uma transmissão, usava-se o telefone, que, muitas vezes, não dava retorno?

José Colombino Grassano – Sem retorno. Quando o Atlético era o Furacão aqui no Paraná e fomos acompanhar o time a Belo Horizonte, em uma transmissão de Atlético Mineiro e Atlético Paranaense, eu transmiti a partida e, até hoje, essa transmissão não chegou aqui em Curitiba. E nós só soubemos disso quando voltamos à capital!

José Wille – De qualquer forma, conseguia-se a linha e se fazia a transmissão, mesmo com riscos?

José Colombino Grassano – Nós chegamos a fazer transmissão do Paraguai com serviço de radioamador. Contratamos uma pessoa que tinha transformadores e um conjunto de radioamador e fizemos a transmissão de uma partida do Atlético Paranaense lá em Asunción.

José Wille – Como Curitiba recebeu as transmissões de futebol pelo rádio?

José Colombino Grassano – Muito bem! Curitiba acompanhava, quando chegávamos  – eu, o Vanderlei Dias, o João Féder  – para transmitir os jogos, era uma festa da torcida, éramos aplaudidos! Com o passar do tempo, eu arranjei um grande colaborador, o locutor oficial  – pois passou a ser locutoro Rocha Braga, que tinha uma bela voz. Certa vez em que transmitia as partidas de futebol, ele se indispôs com o presidente do Ferroviário e a diretoria do time proibiu que ele transmitisse do estádio. E nós, por solidariedade, também não fomos lá. Mas acontece que, naquela semana do affair do Braga com o Ferroviário, vinha jogar aquio Rapid, de Viena. Era um acontecimento importante um time da Áustria vir jogar em Curitiba. E nós, o que fizemos? Fomos ao Corpo de Bombeiros e eles nos cederam uma escada magirus. E eu transmiti o jogo de cima da escada magirus. O Vanderlei Dias era o meu comentarista naquela ocasião e o Cândido Gomes Chagas, da revista “Paraná em Páginas”, era também colaborador nosso e entrava e saía do estádio para nos trazer as informações. Isso tudo aconteceu em uma época que tínhamos dificuldade de operações.

José Wille – Transmitiram o jogo pendurados na escada?

José Colombino Grassano – Pendurados na escada! E aconteceu que o Vanderlei tinha sofrido um procedimento cirúrgico, estava chovendo, ele escorregou e teve um problema de saúde. Mas foi um fato marcante na vida da gente.

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