O radialista Arthur de Souza ficou 29 anos no ar

Arthur de Souza, com o programa “Revista Matinal”, foi líder em audiência durante décadas no rádio de Curitiba. Formado em Direito, ingressou na carreira política, elegendo-se deputado estadual várias vezes. Esta entrevista foi gravada em setembro de 1997, e ele morreu em 2006, aos 83 anos.

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José Wille – O rádio de Curitiba começava tarde antigamente?
Arthur de Souza – Começava às 9 da manhã. Quando criei a Revista Matinal, passou a começar às 8. Então, das 8 às 9, era o meu programa; depois, continuava com a programação normal. Com uma curiosidade: o rádio, naquele tempo, parava às 2 da tarde, quando os transmissores eram apagados, porque as válvulas esquentavam tanto que precisavam ser resfriadas com água. Havia um tanque, onde ficava o transmissor que refrigerava as válvulas. Outra curiosidade: a linha de transmissão era por fios; então, do estúdio até o Atuba, as linhas eram como fio telefônico. De vez em quando, acho que por gaiatice de um guri, o circuito das linhas era fechado; então, o engenheiro, que tinha uma caminhonete, nos levava junto para localizarmos onde tinha acontecido a interrupção daquela linha.
José Wille – A Clube ficava ali no centro, na Barão do Rio Branco?
Arthur de Souza – Sim. Outra coisa curiosa: o radiotransistor foi uma grande coisa na vida do rádio, porque os rádios eram de válvulas, ligadas na luz, e aquelas lâmpadas tinham que ficar acesas. E nos automóveis, às vezes, o sujeito ficava ouvindo algum jogo de futebol e, quando ia dar a partida, o carro não pegava, porque a bateria tinha descarregado. Esse pessoal que morava em colônia tinha duas baterias, porque trazia uma para carregar, enquanto escutava o rádio com a outra.
José Wille – O rádio transistorizado só veio muito mais tarde. Até aí, o rádio não acompanhava as pessoas.
Arthur de Souza – Sim, porque era pesado. O portátil só veio depois do transistor.
José Wille – Havia a concorrência de rádios de fora? As pessoas ouviam aquelas grandes rádios de São Paulo e Rio ou se interessavam também pela rádio local, que falava de Curitiba?
Arthur de Souza – A rádio das cidades grandes era uma grande atração, por causa dos locutores da época. As estações argentinas também eram muito ouvidas no Brasil. E era comum, quando um locutor ia começar a carreira, imitar um dos figurões da época. Então, não havia naturalidade, aquele caráter próprio.
José Wille – O senhor disse que o auditório da rádio PRB2 era isolado do público. Era separado por um vidro?
Arthur de Souza – Nós até chamávamos de aquário, porque era um vidro enorme, como de uma vitrine. Então, os artistas, a orquestra, tudo isso ficava ali dentro. O auditório era um plano inclinado atrás desse vidro. O assistente podia gritar o quanto quisesse, podia aplaudir, fazer o que quisesse, que não perturbava a transmissão. Mais tarde, a rádio mudou da Barão do Rio Branco para a Monsenhor Celso, para uma grande reforma. Daí, sim, fez-se um palco grande, com cortina que abria e tal. Mas isso só aconteceu depois de muito tempo.
José Wille – Esse isolamento com o vidro certamente tirava a vida do programa, sem interação com o público que estava ali assistindo.
Arthur de Souza – Tirava, mas tinha a vantagem de que o som era muito mais puro, porque não havia a interferência do auditório. Mas, em compensação, não tinha palmas. Havia ocasiões em que se usava um disco de palmas. Quando o operador precisava dar calor a uma apresentação, era o disco que aplaudia, não o público.
José Wille – Os artistas que passavam por Curitiba tinham, então, presença obrigatória. Estavam ali para divulgar seu trabalho.
Arthur de Souza – E acontecia o seguinte também: nós estávamos em plena época do jogo. Então, o jogo precisava alimentar a vida noturna e os cassinos traziam grandes artistas, grandes cartazes para Curitiba. Quando grandes artistas vinham para o Rio de Janeiro e São Paulo e depois iam para Porto Alegre, não deixavam de passar por Curitiba, em função de terem aqui um contrato garantido, que o cassino Ahú lhes propiciava. A rádio tinha um convênio com o cassino Ahú, de forma que o artista que se apresentava lá apresentava-se também na rádio. Algumas vezes, nós irradiávamos diretamente do cassino Ahú. Com isto, a elite curitibana frequentava o cassino, porque queria ver seus artistas favoritos e era uma maneira de fazer um bico na roleta. Portanto, o jogo tinha grande afluência por causa desse grande público, que era atraído também por esses artistas.
José Wille – E a presença do curitibano no auditório era grande? As pessoas acompanhavam os programas?
Arthur de Souza – Era grande a presença. O auditório estava sempre lotado. Mormente depois que a rádio fez essa reforma, pois o palco ficou grande e as acomodações para o público também eram largas.
José Wille – O senhor lançou um programa com um nome curioso: Desfile de Fantasmas. Como era?
Arthur de Souza – O Desfile de Fantasmas foi feito para aquelas pessoas inibidas, que não têm coragem de se apresentar no microfone, mas têm boa voz, cantores de banheiro. Essas pessoas tinham medo do insucesso no palco, então não se apresentavam. Aí, tivemos essa ideia. Se ninguém sabe quem ela é, se for vaiada, se não cantou direito, se interrompeu ou desafinou… Então, tinha um capuz preto, como um fantasma, e a pessoa punha aquilo e cantava. Se ia até o fim e era aplaudida, o auditório exigia que tirasse a fantasia, porque queria saber quem cantou. Tirava e era mais aplaudida ainda. Se errava, ia lá para dentro e ninguém sabia quem era. Tinha gente que ia e cantava muito bem e tinha gente que não cantava nem cinco palavras e já era gongada…
José Wille – E tinha aqueles que, mesmo aplaudidos, não queriam tirar o capuz, com vergonha?
Arthur de Souza – Não, não tinha, não. Quando a pessoa tinha sucesso, ela deixava que tirassem o capuz.
José Wille – Esse foi o seu primeiro programa de sucesso no rádio?
Arthur de Souza – Sim, foi esse.
José Wille – Políticos usavam já o rádio, nas décadas de 40, de 50? Como era a presença deles no rádio?
Arthur de Souza – Não havia programas políticos como há hoje, inclusive horários gratuitos, como a gente vê na televisão. O político vinha à rádio quando havia oportunidade para abordar algum assunto ou quando era convidado pela emissora. Acontecia que nós de rádio forçosamente tínhamos certa penetração perante o eleitor, por causa das ideias que abordávamos, assuntos e brigas que a gente comprava, como se vê hoje também. Havia um estreitamento entre o ouvinte e a personagem de rádio.
José Wille – O senhor diz que era pouco comum uma entrevista. Mas alguns professores universitários faziam palestras através do rádio… De que forma?
Arthur de Souza – Isso acontecia muito. Porque Curitiba é uma cidade universitária e o pessoal da rádio trazia essa gente para aumentar o nível da programação. E, com isto, muitos professores vinham e faziam palestras.
José Wille – Eram professores universitários que iam lá e, sem a presença de um entrevistador se apresentavam?
Arthur de Souza – Sim. Não era uma entrevista. O professor vinha e abordava um assunto que estava naquele momento em evidência.
José Wille – E o surgimento do radioteatro?
Arthur de Souza – Quando surgiu, a princípio não era um corpo de radioteatro efetivo. Era gente de boa vontade que gostava de teatro e vinha compor o elenco da rádio, voluntários… A primeira peça transmitida pela B2 foi “A Ceia dos Cardeais”, não lembro dos figurantes, mas eram três pessoas que a apresentaram. Depois, veio a novela propriamente dita. E o interessante era como eram feitos os efeitos sonoros, a sonoplastia. O sonoplasta fazia os sons ali dentro do estúdio, enquanto a peça era encenada. Então, se havia uma tempestade, pegava uma folha grande de zinco e balançava, aquilo parecia trovão, vento… Um galope de um cavalo era feito com cascas de coco, que ele batia no peito e nas pernas. Depois, começaram a chegar os sons gravados, efeitos sonoros que iam enfeitar o quadro.
José Wille – Como foi a chegada do futebol na rádio?
Arthur de Souza – A chegada do futebol foi curiosa. Um dos membros da casa arvorou-se em locutor esportivo, porque conhecia futebol e tal e foi fazer a irradiação. Mas era assim “ali vão eles com a pelota, eles vão chutar, agora fizeram gol…”, mas não dizia quem chutou, quem fez o gol. Ainda se fosse televisão, tudo bem. Mas, para rádio, o pessoal ficava completamente vendido.
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