Alex Beltrão falava do desenvolvimento do Paraná nesta entrevista de 1998

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Alex Beltrão foi diretor-executivo da Organização Internacional do Café, de 1968 a 1995. Seu interesse pelo assunto vem do período de 1930 e marcou toda sua vida profissional. Em 1995, retornou ao Paraná e foi, por 8 anos, secretário do governo Jaime Lerner. Assumiu a Secretaria de Ciências, Tecnologia e Ensino Superior e também foi presidente da TECPAR e secretário especial de Assuntos Estratégicos. .

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José Wille – O senhor nasceu em 1924, aqui em Curitiba, de duas famílias que marcaram muito a história do Paraná…

Alex Beltrão – Eu sou Fontana Beltrão, com muitas outras ramificações. Sou um curitibano de várias gerações, para os dois lados. Meu pai é engenheiro, vem de uma família de engenheiros, de origem pernambucana, mas ele já era a segunda geração, pois o pai dele veio para cá como juiz. A minha avó é Gutierrez, de sangue uruguaio, mas morava em Paranaguá. Do outro lado, eu sou Fontana, família de erva-mate, do meu avô materno.

José Wille – Ele foi o primeiro a ter um carro em Curitiba?

Alex Beltrão – Sim, o carro número 1 de Curitiba. Ele era muito inventivo. O pai dele veio do Uruguai para estabelecer aqui a indústria de erva-mate e foi um homem de muita repercussão. O comendador Fontana criou o Passeio Público e se inseriu muito na vida da cidade. Do outro lado, da minha avó, mulher dele, eu sou bisneto do Barão do Cerro Azul, os Correia. Então, se for olhar a árvore genealógica, tem muita coisa para contar. Meu pai trabalhou junto com o meu tio, Francisco Beltrão. Os dois foram homens de enorme preocupação geográfica, engenheiros da geografia, os homens que faziam os mapas. Eu vejo muito mapa aqui e gosto muito, porque era uma tradição de família – quando menino, trabalhei em mapas. Esta tradição vem um pouco do fato de eles terem estudado no Rio de Janeiro, da preocupação de mapear o Brasil, que era coisa importante no começo do século. Eles trouxeram isto para cá e sempre foram profissionais de muita competência. Mas não havia com o que pagá-los, então os serviços de mapeamento do estado eram pagos com o que se chamava de terras devolutas. Eles acumularam muita terra, muitas áreas desocupadas do Paraná, que eram somente ocupadas aqui em Curitiba, Paranaguá e até Ponta Grossa, um pouco para Jaguariúva e Castro, tendo como limite Guarapuava. Em uma etapa bem mais tarde, depois da Revolução, tentaram dividir essas terras, porque o Paraná já começava a ser penetrado pelo Norte, com as migrações paulistas. As colonizações eram organizadas pela Companhia de Terras do Norte do Paraná – o grupo inglês que comprou uma grande parte dessas terras. E pelo Sul entravam os gaúchos, no que hoje se chama o Sudoeste. Então, eles foram muito presentes nesse processo, escreviam e viajavam muito. Eu fiquei muito impregnado dessa percepção paranista, não tanto curitibana, mas dessa dimensão de que o Paraná é bem maior que Curitiba. Mas sempre tive uma afeição profunda por Curitiba, porque foi aqui que me criei.

José Wille – O seu pai estava no interior do Paraná no momento da colonização. O senhor tem uma boa recordação desta época?

Alex Beltrão – Sim. As coisas se dividem aqui no Paraná, aqui no Brasil e, talvez, no mundo em antes e depois de 1929. Houve a crise industrial, houve aqui a mudança da Revolução, que levou ao poder Getúlio Vargas. Aqui em Curitiba, houve a queda do governo velho, que era o de Affonso Camargo, e veio para cá o Manoel Ribas. Então, nesse período, muitas coisas aconteceram. Meu pai e meu tio eram elite de governo. Meu tio era secretário de obras e era o responsável por muitas outras delas: construção, empreitada… Eram homens “da situação” e, com a Revolução, passaram a ter muito problema. Os dois resolveram, então, entrar na questão da colonização para pagar dívidas, para poder continuar sua tarefa de engenharia. E os dois eram muito afeitos, homens de interior, e foram chamados de Comissários de Terra – residentes que assentavam posseiros e arrumavam a vida dos índios. Enfim, eles tinham uma vivência muito grande do Paraná. Meu tio optou por ir para o Sul, para Clevelândia, e de lá foi colonizar essa área que hoje é Francisco Beltrão – cujo nome é em homenagem a ele – e Pato Branco. Nesse meio-tempo, meu pai foi para Londrina, que estava sendo fundada, porque havia umas áreas lá que tinham sido dadas como pagamento a esse escritório, por conta da medição de terra que eles fizeram para a Companhia de Terras do Norte do Paraná, uma compra feita nos anos de 1920 e poucos, de muita importância no Paraná, que iniciava a colonização pela mão dos ingleses. Meu pai fundou – morando em Londrina – o que se chama hoje a cidade de Ibiporã. Tratava-se de dividir os lotes, dar posse etc. Isso coincide com o período em que começava a vir o café para o Paraná. O café entrava ali por Ourinhos e chegava até Cornélio Procópio. Com a queda enorme de preços que afetou o café, parou esse fluxo, mas muita gente queria migrar e ser proprietário de café – gente do Espírito Santo, São Paulo, Minas etc. E aqui se estabeleceu, então, uma oportunidade, já com uma reforma agrária pronta, porque o cidadão comprava o lote, pagava uma entrada pequena, que era o dinheiro que ele trazia, mas tinha a segurança de estar totalmente demarcado – tinha na frente uma estrada e, nos lotes maiores, nos fundos, um rio. Podia, então, com a madeira que cortasse e com o plantio do milho, plantar mais café. E, se tivesse sorte, ali pela quarta safra, quatro anos depois, ele pagaria as contas e começaria a ganhar dinheiro. Então, houve um fluxo muito grande, porque era uma experiência que não existia. No resto do Brasil, eram posses, ou eram posses e depois divisão, em meio a brigas, com heranças e tudo. E aqui entra essa oportunidade. Isso levou a essa penetração muito grande no Norte do Paraná, da criação de toda uma migração e de uma civilização. Meu pai participou disso, porque ele também tinha terras e foi criar a cidade de Tamboara e, posteriormente, cinco anos depois, criou Engenheiro Beltrão, entre Peabiru e Maringá, que levou o nome dele. Nesse período, eu tive a felicidade de participar deste processo, pois estudava aqui, mas, em minhas férias, convivia com essas mudanças, porque meu pai morava em Ibiporã. E eu pude sentir que mundo diferente é o Paraná! Naquela época, não havia ligações de estradas, pois a ligação era ferroviária. Começava a Estrada do Cerne, que tinha sido construída pelo Manoel Ribas, mas ainda eram mundos diferentes: um, de penetração por São Paulo e Ourinhos; outro, daqui de Curitiba, que não tinha tradição de café. Algumas famílias daqui tinham negócios lá. O Brasílio Araújo, o Canet, o pai do Jaime tinham negócios de café na zona velha. Alguns migraram, foram abrir frentes na zona nova que se constituía; outros permaneceram na zona velha, mas não havia uma ligação com Curitiba.

José Wille – O senhor pretendia cursar Engenharia, mas teve o serviço militar, o CPOR, na década de 1940, época da Segunda Guerra Mundial.

Alex Beltrão – Eu não interrompi os estudos. Eu continuei meu curso, mas com pouca presença, porque, durante o CPOR – e eu o comecei antes da guerra – era parte do ensino, mas eu ainda estava no chamado pré. Fiz três anos de CPOR. E era uma forma de calçar umas botas e de ser elegante, andar a cavalo e sair com os amigos – uma coisa muito simpática o CPOR antigo. Durante o meu curso de CPOR, mudou o quadro brasileiro e o Brasil se comprometeu a entrar na guerra ao lado dos americanos e, portanto, as técnicas de artilharia mudaram completamente. O curso passou a ser de dois anos. Tive que reaprender muita coisa e, seis meses depois de acabar o curso, fui convocado, porque a guerra já estava recrutando gente. Não me lembro em que ano foi, mas tinha acabado de entrar na Escola de Engenharia. Cursei o primeiro, segundo e terceiro ano aqui, um pouco ausente, estudando e indo fazer as provas.

José Wille – Para o jovem que estava no serviço militar, qual era o sentimento com a possibilidade de ir lutar na Europa?

Alex Beltrão – Muitos amigos meus um pouco mais velhos foram. Eu não via como uma impossibilidade, mas nós éramos alegres, jovens e vivíamos isso tudo até como uma aventura. O que era mais engraçado, mais típico, é que essas mudanças políticas de ideologia e de posicionamento do Brasil levavam regiões, como a do Paraná, a crises sérias de família, de amizades, porque, de um dia para outro, você teria o seu melhor amigo, que era de etnia alemão ou italiana, “do lado de lá” e você, “do lado de cá”.

José Wille – E o próprio governo brasileiro, até certo momento, não se definia.

Alex Beltrão – Você não tinha definições. Eu me lembro de divisões muito fortes na família, de simpatizantes do Eixo e simpatizantes dos ingleses, e nós garotos queríamos mais era festa. Então, de repente, era oferecida uma camisa de integralista ou um prêmio qualquer, uma coisa qualquer, e nós não levávamos muito a sério. A primeira vez que eu percebi isso a sério foi quando alguns amigos meus, que tinham 16 ou 17 anos, saíram como voluntários para treinar como pilotos, uns para os Estados Unidos, outros para a Alemanha. Também no plano interno você sentia uma presença grande de propaganda alemã, com dirigível passando aqui por cima…

José Wille – O senhor se recorda da passagem por aqui?

Alex Beltrão – Sim, e era a maior coisa do mundo. Não se via avião, imagine então ver um bicho daquele sobrevoando! Depois, surgiam esforços já bem dirigidos de propaganda de companhias – por exemplo, a Bayer fazia propaganda; o Tio Paulo, que dava impressão de fazer propaganda alemã, falava na PRB2, fazia uma série de festas e a garotada gostava muito dele. Com a guerra e com a evolução das coisas, o quadro mudou. Eu me lembro de ter desfilado aqui com o CPOR, a gente colocando os canhões velhos em cima de uns caminhões… Uma vez, fiz um desfile debaixo de uma chuva danada, típica de Curitiba. Depois, descobri que estava presente o general americano Marshall, esse do Plano Marshall. Nessa época, ele era um general-de-brigada e tinha vindo aqui para conversar com o Oswaldo Aranha, nosso ministro de Relações Exteriores, que estava em sua fazenda no Rio Grande do Sul. E, no retorno, o general passou para visitar a nossa região.

José Wille – Ainda como estudante, o senhor colaborou como estagiário na construção do Aeroporto Afonso Pena pelos americanos.

Alex Beltrão – Como parte da guerra ou parte da estratégia do acerto com os americanos, foi permitido que eles construíssem alguns aeroportos no Brasil. O primeiro foi para melhorar Natal, para preparar a invasão da África do Norte, para Dakar. O segundo parece que foi o de Caravelas; o terceiro, em Curitiba; e o quarto, acho que era em Pelotas. Isso tem um pouco a ver com a grande presença dos navios alemães aqui no Sul, que se refugiaram nos países neutros, Argentina e Uruguai, e os americanos então criaram isto. Nós, aqui, fomos tomados de surpresa. Lembro que meu pai era prefeito nesta época e no centro, no Braz Hotel, surgiu um grupo de americanos com quem tomei uns drinques – eu devia ter uns 17 anos e gostava muito de treinar inglês, treinar línguas. Nessa conversa, descobri que eles estavam trazendo equipamentos para fazer um aeroporto em Curitiba. Na época, nós tínhamos somente o do Bacacheri. Esse processo se desenvolveu com uma desapropriação grande em São José dos Pinhais. E os tratoristas me convidavam, durante o período de férias, para ficar com eles – e eu alegava que seria intérprete, embora não soubesse nada de inglês, mas queria ver as máquinas. Então, me mudei e fiquei 2 ou 3 meses morando em Afonso Pena, durante a construção. E, para receber um pagamento de 600 mil réis – foi o que o empreiteiro acertou comigo, a pedido dos americanos – eu deveria fazer um relatório sobre como fazer um aeroporto, coisa de que eu não sabia nada. Mas eles me utilizaram: cada um dos engenheiros me dava um pedaço, de noite escreviam e me davam fotografias. O diretor da companhia, um engenheiro muito importante do Rio de Janeiro, me trazia documentos sobre como selecionar uma área de aeroporto. No final, fiz um bom relatório e o entreguei para o reitor da época. Foi publicado no jornal do diretório e aí eu me lancei como escritor e como técnico em coisas que não conhecia. Mas foi um período muito simpático e interessante, porque, recentemente, fui coordenar as relações do governo do estado com a Infraero, nos momentos finais dos trabalhos. Achei um círculo muito interessante: retornar ao aeroporto para trabalhar ou contribuir para sua ampliação.

José Wille – O senhor acabou ficando vários anos, em função da guerra, no CPOR. Foi lá que conheceu Ney Braga?

Alex Beltrão – Sim. Depois do CPOR, eu fui convocado como oficial de artilharia. Fui para o 3° RAM, onde é hoje o Shopping Curitiba, e o professor de artilharia, neste período, era o Ney Braga – o capitão Ney, que havia bolado um sistema de mostrar umas fumacinhas para simulação de tiros. Esse contato foi muito interessante, pois ele era muito querido de todos os jovens. Era muito entusiasmado pelo que fazia. Guardo uma recordação muito boa do Ney nessa época. Depois, nos encontramos quando ele foi prefeito e mantivemos contato grande pela vida, mas foi aí que nós começamos a nossa amizade.

José Wille – Terminado o CPOR, com esses anos todos passados no Exército, como foi o começo da vida profissional como engenheiro?

Alex Beltrão – Trabalhei muito tempo no Exército ainda, aqui em Curitiba, na fábrica de pontes de travessia de grandes rios e carroças, que era muito bem montada.

José Wille – O Exército ainda utilizava a tração animal em alguns transportes?

Alex Beltrão – Sim, muito, pois se fazia carro-pipa e carrocinha. Eu consegui essa transferência, porque um amigo meu queria vir para os cavalos e para a artilharia e eu queria ir para a tecnologia, para a fábrica de Curitiba. Com isto, passei lá uns 2 anos, muito feliz, porque pude estudar, continuar meu curso e também fazer uma espécie de estágio em coisas diferentes, de máquinas e de tecnologia. Ali, houve uma visita de um diretor da Escola Politécnica de São Paulo, que me convidou para ir para lá. Eu também tinha a possibilidade de ingressar na Escola Militar de Engenharia, do material bélico, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, mas optei por São Paulo, pois queria continuar no setor privado.  Então, fui e terminei meu curso de Engenharia em 1948.

José Wille – A ida para a França, com uma bolsa para estudar planejamento – foi aí que se iniciou uma nova carreira, que seria a consultoria em planejamento?

Alex Beltrão – Sim. Eu não sabia bem o que queria. O engenheiro, nesta época, por mais bem-formado, era uma espécie de matriz para qualquer coisa. A herança brasileira havia passado dos advogados aos engenheiros, como “os que formavam os mais adequados para postos de chefia pública ou mesmo no setor privado”.  Eu acho que me dei conta que queria saber mais coisas da Europa. Fui, então, buscar coisas novas. Não era um propósito tão sério como o dos bolsistas de hoje, que têm um propósito muito claro. O meu era um pouco aventureiro, mas que foi extremamente útil, porque era barato ir para a Europa e, além do mais, era um período de efervescência de pós-guerra, pois lá se encontravam os intelectuais “brasileiros de Paris” da época – engenheiros quase não havia, o grosso eram cineastas, pianistas, escritores, o Jorge Amado, o Scliar… Então, deixei um pouco a engenharia de lado e fiquei cultivando as mais variadas relações nesse tempo de Paris. Não descuidei dos meus cursos, mas sobrou pouco deles e muito do resto – da vivência com a França, do aprendizado da língua e das amizades, que, depois, eu reestabeleci também aqui no Brasil. Quando voltei, fui trabalhar no planejamento do que havia, que era a Companhia Brasileira de Engenharia. Aqui, o planejamento chegou pelo que se chama, no pós-guerra, de Comissão Mista Brasil-Estados Unidos. Era um esforço do qual faziam parte o Campos e o Ari Torres, formando um grupo misto para pensar em projetos para o desenvolvimento do Brasil, em portos, ferrovias etc. No fundo, era uma negociação de um grande financiamento que permitisse ao Brasil renovar a sua infraestrutura. Como consequência disso, havia um espírito muito grande ainda no final do governo do Getúlio, que se tornou muito forte no governo de Juscelino de criar condições de planejamento. Através de recursos, criou-se o Banco de Desenvolvimento Econômico, que hoje é o BRDE. Nos estados, começava a se pensar em esforços de coordenação, com o objetivo de se desenvolver a região, o estado etc. O primeiro deles foi em Minas, que começou com a Cemig, fazendo um plano de eletrificação muito interessante. Pelo exemplo, outros se seguiram. A companhia que tinha a responsabilidade de construir Paulo Afonso, no Rio São Francisco – a Companhia do Vale São Francisco – também teve a responsabilidade de estender a eletrificação a todo o interior da região, para justificar tudo aquilo. Foi por um contrato com esta companhia, do qual participei, que conheci o Nordeste e viajei por lá…

José Wille – O seu escritório já havia crescido bastante, chegando a fazer trabalhos para o governo Juscelino Kubitschek, com relação à vinda de empresas, dessas fábricas de automóveis…

Alex Beltrão – Dessa experiência de eletricidade, com o grupo que tínhamos, nós decidimos criar um escritório próprio, porque não era mais somente eletricidade, mas o que fazer em muitas frentes. Surgiam as demandas para localizar indústrias, formavam-se “grupos executivos”, para quem o governo dava favores para que viessem. E tínhamos que fazer trabalhos para organizar a nacionalização dessas fábricas. Isto se aplicava tanto à indústria automobilística quanto, depois, aplicou-se fortemente à indústria naval, na qual eu trabalhei mais, porque muitos dos estaleiros que nós ajudamos a construir se localizaram em regiões como o Rio Grande, Bahia etc. Esse é o período que me trouxe um pouco de volta ao Paraná, porque, vindo de São Paulo, com um escritório lá, eu reencontrei minhas raízes aqui. Primeiramente, pelo Parigot, que era diretor técnico da recém-criada Copel, um homem extremamente sério, extremamente capaz, professor de hidráulica, e que queria dar um cunho de projetos de boa ordem aqui. Ele iniciou primeiro o grande projeto, que era o Capivari–Cachoeira. Participei desse projeto, buscando os recursos do BNDE, ainda no governo do Adolfo. Posteriormente, eu reencontrei o Ney Braga. Eu tinha escritórios no Rio de Janeiro, mais no Norte do que no Sul, além de São Paulo, e ele me pediu para ajudá-lo na preparação de um projeto no qual o Itamaraty – o governo central – estava pedindo aos estados que se preparassem para receber recursos da Aliança para o Progresso. Foi assim que vim para Curitiba e, aqui, encontrei a segunda leva das minhas amizades curitibanas, porque, nesse tempo, o Ney tinha como secretários, em torno da mesa, o Afonso, o Paulo Pimentel, o Alípio… Enfim, um grupo muito simpático e bastante jovem – éramos muito jovens nessa época – e todos com o fervor de querer fazer coisas. Então, me inseri nesse projeto e, daí para frente, já como consultor, a pedido do Ney, com o Parigot pagando para organizar as coisas.

José Wille – …Através da Copel.

Alex Beltrão – Sim, através da Copel.

José Wille – No início do primeiro governo Ney Braga, surgiu, de certa forma, o começo do planejamento no Paraná?

Alex Beltrão – Só o planejamento não resolve nada se não houver recursos, e o Paraná era extremamente carente de recursos. O primeiro esforço de buscar recursos pela Aliança para o Progresso não levou a nada, a não ser identificar que aqueles sonhos todos de ligar com rodovias, montagens de escola e mais programas de porto, essas coisas somadas davam em uma carência de recursos muito grande. Naquela época, o imposto, a capacidade do governo de gastar dinheiro, estava no chamado IVC, Imposto de Vendas e Consignações, que estava em 4%, e pesava. Era uma sociedade pobre e, para aumentar o imposto em mais 1%, havia uma resistência muito grande. O Ney estava em minoria, era do PDC – Partido Democrata Cristão – e a maioria na Assembleia era do PTB. Por outro lado, o comércio aqui reagia muito a esta ideia de aumentar imposto. Então, o meu papel foi, com experiências de outros lugares, organizar alguma coisa que fosse aceita pela sociedade da época. E isto foi um empréstimo compulsório equivalente a 1% da receita, com o compromisso de não gastar com funcionários, nem com custeio, nem com pessoal, e dedicar certo montante ao setor privado, tratando este recurso como um recurso garantido e depositado automaticamente pelas coletorias em conta vinculada. E, também, criar uma companhia gestora, onde houvesse a presença de todos os setores da sociedade, com uma gestão independente dos vários secretários – que foi criada com grande apoio e grande envolvimento do Ney. Quando eu vinha aqui, trabalhava com as equipes no próprio Palácio, com ele e com o Alípio, e houve, também, muito apoio na Assembleia, do Aníbal Cury, que já era secretário de lá.

José Wille – Foi uma campanha parecida com a do “Seu talão vale um milhão”, uma forma de gerar recursos e uma poupança para que o estado pudesse investir?

Alex Beltrão – A coisa era meio complicada. As ideias eram muito boas, pois tratava-se de pensar que se você emprestasse para fins determinados, fossem investimentos, públicos ou privados, e por um período bem definido, de 5 anos, e vinculasse esse empréstimo a um papel – ninguém acreditava no repagamento do empréstimo – no qual a pessoa se credenciasse àquilo porque pegava uma nota fiscal, se criaria um incentivo para recolher notas fiscais, que teria um impacto muito grande sobre os 4%. E também nos 5% se trocaria aquela montanha de notas fiscais por bônus ou certificados ou cautelas, que, depois de certo tempo, dariam direito a trocar por ações de participação ou por fundos com os dinheiros aplicados por essa companhia. A ideia era um pouco ambiciosa para a época.

José Wille – Deu resultado efetivo esta poupança que o senhor pretendia criar?

Alex Beltrão – Não, eu acho que deu muito resultado na boa gestão e por ter financiado projetos extremamente importantes. Financiou a ligação rodoviária, novas obras hidrelétricas, muita coisa aqui no Paraná, porque era um recurso grande e fácil de aplicar, pois era gerido por uma empresa. Já a parte relativa à troca, tenho a impressão de que não foi tão bem trabalhada quanto o resto, como obter o dinheiro, porque começou um período inflacionário – o papel já não valia e, é claro, não houve um preparo da opinião pública para querer cobrar isso como uma coisa bem conversada. Mas foi um bom registro e foi útil, porque essa lei de criação do fundo é que permitiu ao estado participar da Renault, da Volvo, pois era o único estado que tinha uma lei que permitia utilizar recursos públicos para se associar a empresas.

José Wille – Esse acompanhamento no governo Ney Braga foi todo através de uma empresa de consultoria, que estava presente em diversas capitais. Era um momento importante para definir-se uma estratégia para o Paraná, porque tudo estava ainda por se fazer: estradas, energia…

Alex Beltrão – É verdade. Nós trabalhávamos muito rápido. Éramos um pessoal jovem, que se deslocava de um lado para o outro, trazia ideia de cá e de lá. Aqui, nós criamos um escritório e ficou um sócio meu que conduzia uma série de estudos setoriais, o Zacarias Sá Carvalho, que já morreu e deixou memórias e inúmeros amigos. Fomos estudar melhor a carne, a indústria, o próprio gado, a parte de curtumes, as indústrias aqui de Curitiba, e me coube estudar o café, porque um dos trabalhos que contratamos com esta empresa foi um estudo da economia cafeeira. Isto foi em 1961 e, também por razões que não vêm ao caso, fui a Nova Iorque ver a negociação do primeiro acordo internacional do café, no qual participariam países produtores e consumidores. Era a primeira vez que se fazia isso. Eu fui como observador nesse contrato, mas representando o Ney Braga, e fui um pouco por intervenção dos paranaenses que trabalhavam com café na época. Passei lá um mês, participando dessas negociações. O coronel Soares Pereira era o presidente da Junta Executiva do Café Paranaense, mas, até esta época, não havia precedentes paranaenses no café, que surgiu logo depois, porque o Maculan, que era observador do Senado na época, nesta mesma reunião, ficou comigo quase um mês lá e, quando voltou – acho que foi quando o Jango assumiu – ele foi convidado a assumir o IBC. Esse estudo me deu muita clareza sobre o problema do café, a percepção de que estávamos em um caldeirão complexo, produzindo café em uma zona fria…

José Wille – O café correspondia à metade da exportação brasileira na época?

Alex Beltrão – Chegou a ser mais da metade da produção. Não era da exportação, porque muitos se acumulavam. Esses armazéns todos que foram construídos no Norte, que o Jaime Lerner está transformando em centros de negócios, foram construídos nesse período e um pouco depois para substituir o armazenamento de café em igrejas, quartéis, em más condições de acondicionamento. Mas, sem dúvida, as estradas não eram suficientes, o porto não era suficiente, e tudo isso mostrava a necessidade de uma continuidade de planejamento, que, com os acidentes de percurso, foi um pouco interrompido, pois houve a Revolução de 1964 e a estrutura de governo mudou completamente.

José Wille – O senhor esteve no IBC representando o Brasil em Nova Iorque, de 1965 a 1968. Depois, por quase 30 anos, na direção executiva da Organização Internacional do Café, em Londres. É possível, dentro dessa visão, entender o porquê da queda da produção brasileira do café, principalmente com relação ao Sul?

Alex Beltrão – Isso é perfeitamente claro, porque, primeiro, o café sempre migrou. No Brasil, começou no Pará e veio parar no Paraná. E aqui foi contido pelo frio. Mas sempre foi em busca de mão-de-obra barata, do tempo da escravatura, ou de terra muito fértil, que foi o período de São Paulo, sul de Minas e, depois, Paraná. No entanto, as terras se enfraqueceram, o excesso de preços levou a plantios enormes, criou-se uma superprodução e veio o desestímulo e a intervenção de governo, em todos os planos. Então, tem-se muito claro esse ciclo e ele continua, mas de uma forma bem mais branda. O período exclusivo foi esse do Paraná, porque aqui se passou de uma produção brasileira baixa a um excedente enorme, o que levou a todas essas intervenções. O Convênio Internacional de Café e essa intervenção toda se deveram à criação de excedentes muito fortes por essa expansão no Paraná.

José Wille – Depois de 30 anos no exterior cuidando de café, como foi o convite para retornar ao Paraná e integrar o governo Jaime Lerner?

Alex Beltrão – Foi uma coisa bastante natural, pela própria carreira no café e muitas reeleições. Eu percebia que, pela minha idade e até pelas demandas, tinha que mudar um pouco de ramo, me aposentar e procurar um lazer. Eu pensava sempre em voltar ao Rio, porque tenho apartamento lá, ou ficar em Londres, pois tenho os filhos morando há 27 anos lá, o que é um vínculo muito grande. Mas o Jaime, ao ser eleito, me ligou e me convidou para um posto aqui. Eu não sabia nem o que era e tive um pouco de dúvida – afinal de contas, todo o tempo fora, a idade e tudo, “O que eu viria fazer aqui em um grupo novo, em retorno ao Paraná?”. Este era o lado do bom-senso. O outro lado, mais aventureiro, dizia “Puxa, que tal fechar o ciclo, voltar ao Paraná, para cooperar, participar de uma equipe e visitar essas coisas de hoje e, talvez, ser útil, trazendo um pouco da minha experiência?”. Então, aceitei, vim para o que o Jaime Lerner tinha me reservado, que era a Secretaria de Ciências, Tecnologia e Ensino Superior, que ainda incluía, na época, Indústria e Comércio, que era uma secretaria especial. Ele já havia separado as duas – a outra era para o Kalil, um amigo dele, que me perguntou “Você acha que dá conta? Quer também o Ensino Superior?”. Eu não sabia bem o que era o Ensino Superior, francamente só sabia o que era a Universidade de Londrina, porque meu irmão é professor lá e é bem mais velho… Das outras, eu tinha uma notícia, mas não me dava conta da tarefa, do que era isso. Então, pedi para chegar aqui e examinar isso. E, examinando, cheguei a umas conclusões engraçadas – eu sabia o que eu não queria: retornar ao planejamento, retornar à economia ou à agricultura. Mas falar da Tecnologia, do Ensino Superior, que são áreas em crise no mundo inteiro, eu achei interessante e assumi o cargo. E já levo 3 anos e um pouco disso, já sou o mais antigo dos secretários de Ciência e Tecnologia no Paraná, o que ficou mais tempo, porque o período de existência da secretaria não é longo, com apenas 5 ou 6 secretários. Mas, aceitando isso, eu não aceitei ser “secretário de Ciência e Tecnologia e Ensino Superior” e ponto. Não… Aceitei retornar ao Paraná e participar da aventura Jaime Lerner.

José Wille – O senhor participou do trabalho de atração das empresas montadoras ao Paraná?

Alex Beltrão – Muito, mas não formalmente. Muita coisa de que participei aqui, com o governo, foi contribuindo com ideias e informações que ajudassem aqui e ali. Sentei em várias mesas, mas não em uma função direta de contratos, porque isso pertencia muito mais às áreas específicas de Planejamento e de Fazenda. Mas, sem dúvida, me animei muito, chegando aqui e vendo, em primeiro lugar, como havia clareza na formulação do Jaime Lerner, com excelente cabeça, otimismo, vontade de fazer e fazendo no sentido prático, com uma equipe bastante jovem. Conhecia muito o Rafael, que frequentava minha casa em Londres. O Cássio, eu conhecia de um passado longínquo. Eu percebi como aquele grupo tinha uma carga forte de disposição, de aventura e de fazer. A questão de como começar e os projetos do Jaime, todos bonitos, me preocupava um pouco, pois havia a questão da limitação de recursos e o fato de estar em uma posição política que não era a mais atraente para ter as benesses do poder central.

José Wille – Ele estava no partido de oposição na época, o PDT.

Alex Beltrão – A vinda das montadoras foi uma espécie de acidente, em resposta a uma tendência, que foi a abertura de mercado – do Mercosul. Foi importante essa migração das indústrias para o Sul e essa percepção que o Jaime teve de atrair para cá algumas que marcassem rapidamente uma modificação, no sentido de precisão de marketing, que foi o caso da Renault. As outras já vieram por iniciativa natural, mas, no caso da Renault, a negociação era muito dura, porque não era como o grupo da Audi que está aqui. Era uma negociação com um grupo anterior, que tinha escolhido Resende para uma fábrica de caminhões.

José Wille – O senhor acha que as concessões eram válidas, considerando que este era o momento de atrair as primeiras empresas, que teriam um efeito multiplicador?

Alex Beltrão – Exato! Era a oportunidade de trazer indústrias, ainda por favores federais, e de deixar a importação, dependendo do caso. E era um final de festa, porque a própria organização do comércio internacional e a Organização Mundial de Comércio levam a pressões muito grandes para que se eliminem favores e vantagens. Todo mundo sabe das pressões sobre o Mercosul, das pressões americanas sobre a indústria automobilística…

José Wille – Quer dizer que temos um momento novo, mais difícil a partir de agora, para a atração dessas empresas?

Alex Beltrão – Ah, vai ser mais difícil! Mas essa percepção do Jaime de que estávamos em um momento de que “ou você entra agora ou nunca mais” e que, portanto, precisava buscar a composição mais possível e mais viável, foi um golpe de mestre e sinto um enorme orgulho e prazer de ter participado de um momento assim. Não que ele pare aí, porque isto veio adicionar à própria equipe e ao Paraná uma percepção de que estamos na trilha certa, em uma região que é do futuro. Não é uma região do passado, não adianta olhar o que foi o café ou a erva-mate. Nós estamos agora dando um salto de enorme importância.

José Wille – Na visão estratégica de planejamento, que é a sua especialidade, o senhor acredita realmente em um momento novo para a economia, na mudança do perfil econômico do Paraná?

Alex Beltrão – Eu acredito. Naturalmente, qualificando que nada acontece por inércia ou só porque há uma vocação regional. Isto não existe! O que existe são cabeças e comunidades que sabem aproveitar bem a conjuntura e mudam o perfil, criando as condições de mudança de paradigma, de mudança da área, para receber investimentos e entrar em outros setores. E o Paraná está nisso, acredito piamente, e estou trabalhando por isto nos anos finais da minha vida.

José Wille – A privatização, a participação da iniciativa privada em setores-chave da economia, que antes eram todos de responsabilidade do governo federal e do governo do estado, o que isto traz como fator novo?

Alex Beltrão – Eu acho que, hoje, isso é divisório. Primeiro, porque a velocidade é muito maior. Pode-se pensar que a globalização nasceu hoje, mas não! Como presidente-diretor de um organismo internacional presente em 70 países, vivi a globalização por 30 anos. Café sempre foi, de certa forma, muito global. É erro pensar que, com 3 portarias ou mudanças de política, porque baixou tarifa, porque isso, porque aquilo, entrou-se na era global. Não! Está-se nela muito antes disso. O que é diferente são as percepções de que se tem um papel a jogar nesta economia global. Acho que isto é, sem dúvida, fundamental e que o papel do governo e o papel do setor privado têm que ser reanalisados, pois são específicos de cada região, de cada país. Não existe livro-texto para decidir a melhor fórmula. É preciso arriscar, estudar a fundo, saber o que se está falando, ter equipe, poder, caneta e determinação. Acho que o Jaime, com a equipe dele, na qual eu me incluo, tem isto: perfeita clareza de onde queremos chegar. E temos, naturalmente, consciência do risco, das dificuldades, mas não pararemos.

José Wille – Secretário, nesta visão de um conjunto brasileiro – em que aparecem sempre estados fortes, como é o caso de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e até mesmo o Rio Grande do Sul – o senhor vê hoje, para o Paraná, que tem uma economia complementar, mas agrícola, a possibilidade de crescimento e que o estado possa ocupar uma posição mais forte no contexto nacional?

Alex Beltrão – Eu vejo, porque a diferença fundamental é que, hoje, a tecnologia, a inteligência e o conhecimento têm um papel muito mais importante que a localização geográfica. Nos tempos do Ney, ou nos tempos meus de jovem, era preciso lutar por muito dinheiro para construir uma economia nova, infraestruturas novas e beneficiar-se muito da melhor moeda que se tinha, que eram terras férteis. Trazia-se, assim, gente competente, diligente, aventureira, que foi a ocupação toda do Paraná. Isso chega às barreiras do Rio Paraná e acaba, pois não temos mais terras férteis. Não é por aí que podemos continuar ou enfrentar uma concorrência, porque, talvez, as terras férteis estejam no sul do Tocantins ou no Cerrado, no caso do café. Portanto, não se tem escolha: tem-se que adicionar valores de outros tipos, complementando e utilizando tecnologias que permitam definitivamente ocupar uma posição de competição global. Também tem-se que preparar recursos humanos para preencher e responder a esses desafios com os currículos que a demanda necessita e não com coisas do passado. Eu tenho na minha secretaria algumas responsabilidades que vão nessa direção. Estamos, por determinação do governador e por planos já de vários anos, instaurando uma rede de telemática que vai interligar todas essas universidades e escolas de nível superior ainda nestes meses vindouros. Estamos com essa rede ligada para o exterior e não tem no Brasil quem possa fazer uma videoconferência ou trocar dados como nós podemos. Portanto, nós ligamos a fonte de tecnologia, seja no Brasil ou no exterior, ligamos a nossa tomada e podemos recolher isto. Acho que, nestes meses e anos próximos, o Paraná vai responder claramente por uma política de governo que é moderna, que não é nem de ausência de governo total, nem de presença em coisas que não sejam relevantes, mas de decisões muito bem acertadas sobre qual é o papel do governo para viabilizar esse sonho de levar o Paraná a uma etapa muito mais sofisticada de economia, de serviços, de indústrias novas. Tudo pode ser feito.

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