O início do transporte coletivo em Curitiba relembrado por Erondy Silvério

 

 

Nascido em Guarapuava em 1923, de família pobre, Erondy Silvério chegou em Curitiba nos anos 1940. Foi cobrador de ônibus e motorista, antes de se tornar empresário do transporte coletivo na capital, no início da década de 50.  Integrou a comissão de empresários que negociou com o então prefeito Ney Braga, no começo de 1955, a estruturação do setor. Elegeu-se vereador de Curitiba, presidiu a Câmara Municipal e exerceu interinamente o cargo de prefeito. Em 1966, elegeu-se deputado estadual e, dois anos mais tarde, chegou à presidência da Assembleia Legislativa. Habilidoso como articulador político, exerceu sete mandatos de deputado até 1994, além das funções de líder de governo nas gestões de Paulo Pimentel, Ney Braga e Hosken de Novaes.

Esta entrevista é de maio de 1997, publicada integralmente na coleção de livros “Memória Paranaense”.

 

 

 

 

José Wille – O senhor teve uma empresa de ônibus, que começou quando o senhor comprou o primeiro ônibus, ainda precário, que o senhor mesmo dirigia.

Erondy Silvério – Era carro de lotação, para doze passageiros. O transporte era primitivamente da Companhia de Força e Luz, um grupo canadense multinacional. E eles tinham o transporte como ônus, porque o filé mignon do negócio era geração e fornecimento de energia elétrica. E como o ônus era o transporte coletivo, eles conseguiram transferir esse ônus para um cidadão chamado Aurélio Forsato, já falecido. Ele ficou com a exclusividade do transporte de Curitiba. Mas foi infeliz na compra de alguns ônibus, que eram excedentes de guerra. No que terminou a Segunda Guerra, ele comprou esses ônibus, que não eram de boa qualidade. Então, o transporte foi se deteriorando, se deteriorando, e a prefeitura lançou o transporte de lotações como transporte supletivo – que acabou tornando-se o transporte principal.

José Wille – Nesse momento, como foi possível para o senhor comprar o seu primeiro ônibus, seu primeiro veículo para fazer a lotação? Como foi essa ideia? O senhor viu a oportunidade e resolveu investir?

Erondy Silvério – Eu vi a oportunidade e resolvi investir. Depois disso, o Ney Braga chamou os donos de lotação e deu um prazo de noventa dias para organizarem a empresa, porque realmente o transporte em lotações era aviltante para a população. Em um veículo com capacidade para doze passageiros, transportavam-se trinta, quarenta. Chegava feriado ou fim de semana, o dono de lotação resolvia ir ao futebol ou ir pescar e caçar e não tinha ônibus. Então, o Ney Braga acabou com aquilo. Quando foi eleito prefeito de Curitiba, ele acabou com aquilo, mas sem abandonar – o grande espírito do Ney Braga, que eu admiro até hoje – os ônibus que sustentaram o transporte em uma hora difícil.

José Wille – Foi ele quem deu a oportunidade para essas pessoas se organizarem…

Erondy Silvério – Deu a oportunidade de se constituírem empresas. E eu, como secretário do Sindicato dos Condutores Autônomos de Veículos Rodoviários, organizei diversas empresas. Mas uns não acreditaram e acabaram desistindo do negócio. Restaram três: Auto Viação Nossa Senhora da Luz, Auto Viação Marechal e Auto Viação Água Verde.

 

Erondy Silvério ao lado do prefeito Omar Sabbag, no início dos anos 1970.  *Do site de Júlio Zaruck. 

 

José Wille – Todas constituídas por vários sócios, que eram os donos das lotações que montaram as empresas, como foi o seu caso?

Erondy Silvério – Daí esse consenso que há hoje na população: “O Erondy é milionário”, “O Erondy é dono do transporte coletivo”. Não! Dono do transporte coletivo é o Goulin. Milionário é ele, que tem hoje 60% do transporte! Essa empresa Auto Viação Nossa Senhora da Luz tem dezesseis sócios. A Auto Viação Marechal tinha dez. A Auto Viação Água Verde tem nove. Eram os donos da lotação.

José Wille – O senhor tinha sociedade em uma delas?

Erondy Silvério – Em uma delas, com partes iguais, com capitais iguais entre cada sócio.

 

 

 

 

 

 

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